

Os espeleotemas, do grego Speleo = caverna e Thema = depósito, são formações minerais que ocorrem em cavernas, a exemplo das estalactites, estalagmites, colunas, cortinas e inúmeras outras tipologias. Suas formas, cores e dimensões dependem principalmente da morfologia da gruta, do tipo de mineral depositado e do mecanismo de deposição (gotejamento, escorrimento, exudação etc.).
Essas formações, que podem se apresentar tanto como delicadas e frágeis flores de pedra ou como gigantescas estruturas minerais, é que ornamentam as cavidades aumentando seu potencial turístico e por vezes religioso, dada a semelhança, no imaginário popular, de alguns espeleotemas com imagens sacras ou zoomórficas. A riqueza em espeleotemas coloca várias cavernas brasileiras entre as mais belas de todo o mundo.
A formação de cavernas (espeleogênese) depende essencialmente da ação das águas sobre rochas solúveis. Vários fatores, como o tipo de rocha, o clima e o relevo interferem nesse processo, fazendo com que algumas regiões sejam mais propícias à formação de grutas e abismos. Tais regiões, geralmente formadas por rochas carbonárias (calcários e dolomitas) apresentam relevo denominado carste, onde ocorrem outras feições, como paredões rochosos, arcos e torres de pedra. No Brasil, são freqüentes também cavernas em outros tipos de rocha, como quartzitos, arenitos, granitos, gneiss, bauxita e ferro, o que amplia o potencial espeleológico do País.
As Províncias Espeleológicas são as áreas onde a ocorrência de cavernas tem expressão nacional, sendo subdivididas em regiões mais homogêneas denominadas Distritos.
São os seguintes os Distritos e Províncias Espeleológicas brasileiros:
1 - Província Espeleológica do Vale do Ribeira
Distrito de Iporanga
Distrito de Região Metropolitana de Curitiba
2 - Província Espeleológica do Bambuí
Distrito de São Domingos
Distrito de Formosa
Distrito de Lagoa Santa
Distrito Cordisburgo - Montes Claros
Distrito Vazante - Paracatu
Distrito Arcos-Paims
Distrito do Médio São Francisco
Distrito de São Desidério
Distrito de Irecê - Campo Formoso
Distrito do Alto Paraguaçu
3 - Província Espeleológica da Serra da Bodoquena
4 - Província Espeleológica do Alto Paraguai
5 - Província Espeleológica da Chapada de Ibiapaba
6 - Província Espeleológica do Rio Pardo
7 - Província Espeleológica Arenítica da Serra Geral
Distrito Arenítico de Altinópolis
Distrito Arenítico Rio Claro - São Carlos
Distrito Arenítico de Vila Velha
8 - Província Espeleológica Arenítica do Alto Urubu
9 - Província Espeleológica do Quadrilátero Ferrífero
10 - Província Espeleológica da Serra do Espinhaço
11 - Província Espeleológica Quartzítica de Ibitipoca
12 - Província Espeleológica Arenítica de Monte Alegre
13 - Província Espeleológica Arenítica de Altamira
14 - Província Espeleológica Laterítica de Carajás
15 - Província Espeleológica Arenítica da Chapada do Guimarães
16 - Província Espeleológica do Paraná
17 - Província Espeleológica da Chapada do Apodi
18 - Área Espeleológica de São João Del Rey - Barbacena
19 - Área Espeleológica de Curaçá - Canudos
20 - Área Espeleológica de Vaza Barris
21 - Área Espeleológica do Espírito Santo
22 - Área Espeleológica do Vale do Paraíba do Sul - Serra do Mar
23 - Área Espeleológica Bauxítica do Vale do Rio Piriá
24 - Área Espeleológica do Grupo Araxá
25 - Região Carbonática do Centro Leste de Santa Catarina
26 - Região Carbonática do Rio Grande do Sul
FAUNA
27 - Outras ocorrências
Com mais de 600 espécies já classificadas, a fauna cavernícola brasileira é a mais rica da América do Sul.
As cavernas abrigam ambientes muito diferenciados do meio externo, caracterizados geralmente pela ausência de luz e de vegetação superior, pela pequena variação de umidade e temperatura e pela peculiar composição química do ar e da água. Cada caverna pode apresentar diferentes habitats (lagos e rios, bancos de argila, depósitos de guano de morcego etc.) e diferentes zonas ecológicas em função da maior ou menor distância da(s) entrada(s).
No ambiente cavernícola se encontra uma fauna muito característica adaptada a essas condições ambientais, sendo os animais classificados em três grupos principais:
Troglóbios:
Animais exclusivos das cavernas, que geralmente apresentam adaptações fisiológicas, comportamentais e morfológicas (despigmentação, atrofia dos olhos, etc.). Peixes, crustáceos e insetos, por exemplo, são comuns entre as espécies desse grupo já identificados nas cavernas do Brasil.
Troglófilos:
Espécies adaptadas ecologicamente às cavernas, mas que não apresentam especializações que impeçam seu desenvolvimento também no ambiente externo. Crustáceos, aranhas, opilões e insetos são comuns entre os troglófilos brasileiros.
Trogloxenos:
Animais de superfície que utilizam com regularidade as cavernas como abrigo, refúgio, local de alimentação ou reprodução. Dentre os trogloxenos destacam-se os morcegos, que, diariamente, saem da caverna para se alimentar.


O Brasil abriga algumas das maiores e mais belas cavernas conhecidas em todo o mundo. Mais de 2 mil cavidades já foram cadastradas pela Sociedade Brasileira de Espeleologia, organismo não-governamental que congrega os grupos dedicados à pesquisa, exploração e proteção das grutas e abismos no País.
Com o estudo mais detalhado das Províncias Espeleológicas Brasileiras, onde se concentram calcários, arenitos, quartzitos e outras rochas propícias à formação de cavernas, o número destas pode atingir algumas dezenas de milhares.
Os ambientes subterrâneos, geralmente caracterizados pela ausência de luz, pequena variação de temperatura e umidade e pela falta de vegetação clorofilada, abrigam ecossistemas muito peculiares e frágeis. Neles se desenvolve uma diversificada fauna cavernícola que inclui animais altamente especializados, como peixes cegos e albinos e várias outras espécies restritas a esses ambientes. Morcegos e vários outros animais encontrados no meio externo também utilizam as cavernas como abrigo em diferentes períodos de seu ciclo de vida.
As cavernas brasileiras também conservam ossadas e vestígios fósseis de uma rica fauna extinta, especialmente dos grandes mamíferos (Megatérios, Toxodontes, Gliptodontes e outros) do período Pleistocênico (10 mil a 1 milhão de anos atrás).
Da mesma forma, pinturas rupestres, sepultamentos, restos de fogueira e outros testemunhos de antigos povos são freqüentes em nossas grutas, reconhecidas como importantes sítios arqueológicos de interesse mundial.
A amplidão das entradas de muitas cavernas, associadas ao ambiente de penumbra e silêncio, a riqueza de suas ornamentações e a fé do povo brasileiro transformaram muitas de nossas cavernas em importantes templos religiosos, visitadas por milhares de peregrinos todos os anos. As Grutas de Bom Jesus da Lapa, Mangabeira e Brejões, na Bahia, e a Lapa da Terra Ronca, em Goiás, são alguns exemplos dessa prática, sediando grandes festas religiosas.
Nas últimas décadas, também o turismo vem descobrindo a beleza e a aventura proporcionada pelas cavernas brasileiras. Grandes entradas e salões internos, lagos e cachoeiras subterrâneas e a extraordinária beleza dos espeleotemas, como as estalactites, colunas, flores de pedra e vários outros tipos de ornamentação, podem ser apreciados em mais de 50 cavernas turísticas espalhadas pelo País.
Entre elas destacam-se, em São Paulo, a Caverna de Santana, a Caverna do Diabo e várias outras situadas na região do Vale do Ribeira, especialmente as abrigadas pelos Parques Estaduais do Alto Ribeira (Petar), Jacupiranga e Intervales. Em Minas Gerais, destacam-se as grutas de Maquiné, Lapinha e Rei do Mato, preparadas para o turismo de massa, e as grutas de visitação controlada do magnífico Vale do Rio Peruaçu; no Ceará, é famosa a Gruta de Ubajara; no Paraná, as Furnas de Vila Velha, com mais de 100 metros de profundidade; no Mato Grosso do Sul, a extraordinária Gruta do Lago Azul; na Bahia, diversas e belas cavernas na Chapada Diamantina.
Várias cavernas brasileiras destacam-se no cenário internacional por suas dimensões e por sua raridade. É o caso da Toca da Boa Vista, na Bahia, que com 65,5 quilômetros de desenvolvimento é a maior gruta da América do Sul e a 19ª do mundo. A mais alta entrada de cavernas também está no Brasil, na Gruta Casa de Pedra, em São Paulo, com 215 metros de altura. Em Minas Gerais estão, simultaneamente, a maior gruta (caverna horizontal) e o segundo mais profundo abismo (caverna vertical) em quartzito do planeta, respectivamente a Gruta das Bromélias, com 2.560 metros, e a caverna do Centenário, com 360 metros de desnível. O Brasil possui, ainda, a maior caverna conhecida em micaxisto, a Gruta dos Ecos, no Distrito Federal, com 1.380 metros de desenvolvimento e um magnífico lago subterrâneo que chega a atingir 300 metros de comprimento.
A presença de gigantescos salões subterrâneos, cachoeiras com mais de 20 metros de queda, lagos com mais de 120 metros de profundidade e enormes espeleotemas, como a estalactite de 28 metros da Gruta de Janelão, em Minas Gerais, considerada a maior do mundo, aliada ao grande potencial de descoberta de novas cavidades, também contribuíram para transformar o Brasil em um dos países mais procurados por expedições espeleológicas internacionais.
O importante patrimônio natural, cultural, científico e turístico representado pelas cavernas brasileiras está hoje protegido pela mais abrangente legislação sobre o assunto. No Brasil, por força da Constituição de 1988, todas as cavernas passaram a ser propriedade da União, e ampla legislação federal, estadual e municipal protege essas cavidades no território nacional, revertendo um quadro de destruição das mesmas por vandalismo, mineração e obras irregulares. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) é o órgão responsável pela proteção e manejo das cavernas e grande parte delas está preservada em parques e em outras áreas protegidas.
MANGUEZAL
A costa brasileira apresenta, numa superfície de cerca de 20 mil km2, desde o Cabo Orange, no Amapá, até o município de Laguna, em Santa Catarina, uma estreita faixa de floresta chamada manguezal ou mangue. Este é composto por um pequeno número de espécies de árvores e desenvolve-se principalmente nos estuários e na foz dos rios, onde há água salobra e local semi-abrigado da ação das ondas, mas aberto para receber a água do mar. Trata-se de ambiente com bom abastecimento de nutrientes, onde, sob os solos lodosos, há uma textura de raízes e material vegetal parcialmente decomposto, chamado turfa. Nos estuários, os fundos lodosos são atravessados por canais de marés (gamboas), utilizados pela fauna para os seus deslocamentos entre o mar, os rios e o manguezal.
O Brasil tem uma das maiores extensões de manguezais do mundo. Menosprezado no passado, pois a presença do mangue estava intimamente associada à febre amarela e à malária, enfermidades já controladas, a palavra mangue, infelizmente, adquiriu o sentido de desordem, sujeira ou local suspeito. O manguezal foi durante muito tempo considerado um ambiente inóspito pela presença constante de borrachudos, mosquitos pólvora e mutucas. As florestas escuras, barrentas, sem atrativos estéticos e infectadas por insetos molestantes fez com que, até meados da década de 70, se pensasse que o progresso do litoral marinho fosse equivalente a praias limpas, aterros saneados, portos confinados por concreto e experimentos de cultivo para aproveitar os terrenos dos velhos manguezais. Embora seja grande a importância econômica e social do manguezal, este enfoque foi em parte responsável pela construção de portos, balneários e rodovias costeiras em suas áreas, diminuindo a extensão dos mangues.
Ao contrário de outras florestas, os manguezais não são ricos em espécies, porém destacam-se pela grande abundância das populações que neles vivem. Por isso podem ser considerados um dos mais produtivos ambientes naturais do Brasil.
Somente três árvores constituem as florestas de mangue: o mangue vermelho ou bravo, o mangue branco e o mangue seriba ou seriuba. Vivem na zona das marés, apresentando uma série de adaptações: raízes respiratórias (que abastecem com oxigênio as outras raízes enterradas e diminuem o impacto das ondas da maré), capacidade de ultrafiltragem da água salobra e desenvolvimento das plântulas na planta materna, para serem posteriormente dispersas pela água do mar. A flora do manguezal pode ser acrescida de poucas espécies, como a samambaia do mangue, a gramínea Spartina, a bromélia Tillandsia usneoides, o líquen Usnea barbata (as duas últimas conhecidas como barba de velho e muito semelhantes entre si) e o hibisco.
No Norte do País, as espessas florestas de mangue apresentam árvores que podem atingir 20 metros de altura. Na região Nordeste há um tipo de manguezal conhecido como "mangue seco", com árvores de pequeno porte em um substrato de alta salinidade. Já no Sudoeste brasileiro, apresenta aspecto de bosque de arbustos.
O chão escuro do mangue é coberto por água na preamar. Ricas comunidades de algas crescem sobre as raízes aéreas das árvores, na faixa coberta pela maré, e, entre elas, encontram-se algas vermelhas, verdes e azuis. Os troncos permanentemente expostos e as copas das árvores são pobres em plantas epífitas. Bactérias e fungos decompõem as folhas do manguezal e a cadeia alimentar é baseada no uso dos detritos resultantes desta decomposição.
Quanto à fauna, destacam-se várias espécies de caranguejos, formando enormes populações nos fundos lodosos. As ostras, mexilhões, berbigões e cracas se alimentam filtrando da água os pequenos fragmentos de detritos vegetais, ricos em bactérias. Há também espécies de moluscos que perfuram a madeira dos troncos de árvores, construindo ali os seus tubos calcários e se alimentando de microorganismos que decompõem a lignina dos troncos, auxiliando a renovação natural do ecossistema através da queda de árvores velhas, muito perfuradas.
Os camarões também entram nos mangues durante a maré alta para se alimentar. Muitas das espécies de peixes do litoral brasileiro dependem das fontes alimentares do manguezal, pelo menos na fase jovem. Entre eles estão bagres, robalos, manjubas e tainhas. A riqueza de peixes atrai predadores, como algumas espécies de tubarões, cações e até golfinhos. O jacaré de papo amarelo e o sapo Bufo marinus podem, ocasionalmente, ser encontrados.
Aves típicas são poucas, devido à pequena diversidade florística; entretanto, algumas espécies usam as árvores do mangue como pontos de observação, de repouso e de nidificação. Estas aves se alimentam de peixes, crustáceos e moluscos, especialmente na maré baixa, quando os fundos lodosos estão expostos. Entre os mamíferos, o coati é especialista em alimentar-se de caranguejos. A lontra, hábil pescadora, é freqüente, assim como o guaxinim.
Os manguezais, usados pelos homens dos sambaquis há mais de 7 mil anos e, a partir de então, pelas populações que os sucederam, fornecem uma rica alimentação protéica para a população litorânea brasileira. A pesca artesanal de peixes, camarões, caranguejos e moluscos é para os moradores do litoral a principal fonte de subsistência.
Embora protegido por lei, o manguezal ainda sofre com a destruição gratuita, poluição doméstica e química das águas, derramamentos de petróleo e aterros mal planejados.
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